domingo, 25 de outubro de 2026
CIDADES

O bimestre em que o Amazonas registrou menos focos, mas o entorno de Manaus avançou

A queda de 26,9% nos focos de calor do Amazonas entre agosto e setembro de 2026, na comparação com 2023, ocorreu ao mesmo tempo em que municípios próximos de Manaus registraram alta. O levantamento da NEX aponta áreas que devem ser acompanhadas, mas não confirma a origem da fumaça observada na capital.
fumacaemmanaus

O Amazonas registrou 65.610 focos de calor entre agosto e setembro de 2026, uma redução de 26,9% em relação ao mesmo período de 2023, quando foram contabilizadas 89.758 detecções. A queda estadual, porém, ocorreu junto com o aumento dos registros em municípios próximos de Manaus e em áreas do setor leste do Estado.

O contraste é um dos pontos centrais de um levantamento da NEX Hub de Análises Estratégicas, elaborado com dados do Painel do Fogo do Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM) e informações territoriais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O estudo indica localidades que podem contribuir para episódios de fumaça na capital quando a circulação atmosférica favorece o transporte das partículas, mas não identifica, isoladamente, a origem da poluição.

Redução estadual não foi uniforme

Entre os dois períodos analisados, o Amazonas teve 24.148 detecções a menos. A variação, no entanto, ocorreu de maneira desigual entre os municípios. Dos 62 municípios considerados no levantamento, 16 apresentaram crescimento nos focos de calor.

Manacapuru, Iranduba, Itacoatiara, Rio Preto da Eva, Careiro e Manaquiri estão entre as localidades que registraram alta. Na região intermediária de Manaus, divisão territorial do IBGE que abrange uma área mais ampla que o entorno imediato da capital, o total passou de 18.231 para 18.980 focos, aumento de 4,1%.

Na região intermediária de Parintins, os registros subiram de 10.290 para 10.686, crescimento de 3,8%. Os dados mostram que a redução observada no total do Estado não representa o comportamento de todas as áreas do Amazonas.

Manacapuru e Iranduba tiveram as maiores altas

Manacapuru apresentou o maior aumento absoluto entre os municípios analisados. Foram 2.730 focos em agosto e setembro de 2026, contra 1.230 no mesmo período de 2023. O acréscimo foi de 1.500 detecções, ou 122%.

Iranduba teve a maior variação percentual. O município passou de 192 para 657 focos, alta de 242,2%. Em Caapiranga, os registros subiram de 946 para 2.248, crescimento de 137,6%.

Também houve aumento em Itacoatiara, de 1.710 para 1.962 focos, alta de 14,7%; no Careiro, de 1.236 para 1.442, avanço de 16,7%; e em Manaquiri, de 1.247 para 1.328, crescimento de 6,5%.

Rio Preto da Eva passou de 241 para 327 detecções, aumento de 35,7%. Nova Olinda do Norte subiu de 992 para 1.282 focos, alta de 29,2%. Borba teve crescimento de 1.550 para 1.771, ou 14,3%, enquanto Urucurituba avançou de 457 para 1.192 registros, alta de 160,8%.

A própria Manaus registrou aumento. O número de focos passou de 490, em 2023, para 557, em 2026, uma elevação de 13,7%. Por isso, a investigação sobre a fumaça também precisa considerar possíveis emissões ocorridas dentro do território da capital.

Setor leste aparece como área de acompanhamento

Além da distribuição dos focos, o levantamento analisou mapas do Windy para observar o alinhamento dos ventos. Nas imagens avaliadas, os traços de circulação atmosférica no corredor entre Parintins, a região de Urucará, Itacoatiara e Manaus aparecem orientados aproximadamente de leste-nordeste para oeste-sudoeste.

Essa configuração é compatível com uma possível circulação de ar do setor leste em direção à região de Manaus. Se as partículas estiverem se deslocando para oeste ou oeste-sudoeste, a fumaça produzida em áreas situadas nesse corredor poderá ser transportada para a capital.

Itacoatiara ganha relevância nesse cruzamento de dados por estar a leste de Manaus e ter registrado 252 focos a mais no bimestre analisado. Outros municípios do setor leste também apresentaram alta, como Urucurituba, com crescimento de 160,8%, e Boa Vista do Ramos, que passou de 690 para 1.022 detecções, aumento de 48,1%.

Esses resultados apontam áreas que devem ser monitoradas, mas não comprovam que a fumaça produzida nesses municípios tenha alcançado Manaus. A confirmação depende do sentido efetivo dos ventos e da trajetória das plumas no momento das ocorrências.

Possibilidade também é analisada no sudeste

Os mapas indicam ainda traços diagonais na região entre Borba e Itacoatiara. Caso o deslocamento do ar ocorra do sudeste para o noroeste, a circulação poderá favorecer a aproximação de partículas provenientes de áreas ao sudeste de Manaus.

Borba e Nova Olinda do Norte tiveram aumento dos focos no período comparado. No primeiro município, os registros passaram de 1.550 para 1.771. No segundo, subiram de 992 para 1.282.

Autazes e Careiro da Várzea também estão entre as localidades consideradas na análise geográfica do setor sudeste, embora tenham registrado redução. Autazes caiu de 4.372 para 2.829 focos, recuo de 35,3%. Careiro da Várzea passou de 1.603 para 1.428, baixa de 10,9%.

A diminuição não elimina a possibilidade de contribuição desses municípios em episódios específicos. O transporte da fumaça depende da circulação atmosférica no momento dos incêndios, e não apenas do total de detecções acumulado no período. Careiro da Várzea teve a maior densidade de focos por área municipal em 2026, com 543,5 detecções por 1.000 quilômetros quadrados.

Áreas a oeste dependem de outra configuração atmosférica

O crescimento registrado em Iranduba, Manacapuru e Caapiranga precisa ser interpretado conforme a posição geográfica desses municípios. Eles estão em setores a oeste e sudoeste de Manaus.

Para que a fumaça dessas áreas alcance a capital, seria necessária circulação proveniente desses setores ou uma trajetória atmosférica capaz de levar as partículas até a cidade. O alinhamento observado no corredor leste não explica, sozinho, uma eventual contribuição de Manacapuru ou Iranduba.

A distinção separa duas etapas da análise. Os dados de satélite mostram onde os focos cresceram ou diminuíram. Os mapas meteorológicos ajudam a avaliar em quais condições a fumaça poderia se deslocar até Manaus. Nenhum dos dois elementos, isoladamente, define a origem de um episódio de poluição.

Histórico de ventos ajuda a orientar a investigação

Um estudo apresentado no Congresso Técnico Científico da Engenharia e da Agronomia, com dados da estação automática do Instituto Nacional de Meteorologia em Manaus entre 2012 e 2019, identificou predominância de ventos de leste e nordeste nos períodos seco e chuvoso.

Na meteorologia, a direção indica de onde o vento vem. Assim, um vento de leste sopra do leste para o oeste. Esse padrão histórico torna plausível a avaliação de municípios localizados a leste e a nordeste de Manaus como possíveis áreas de contribuição.

A circulação, contudo, pode variar. Chuvas, características locais e brisas fluviais influenciam o comportamento do vento. Também pode haver diferença entre o fluxo próximo da superfície e aquele registrado em níveis mais elevados da atmosfera.

Imagens não confirmam a trajetória da fumaça

As capturas analisadas do Windy não representam diretamente concentração de fumaça ou qualidade do ar. Uma das imagens está na camada de temperatura, enquanto a outra mostra a acumulação de vento.

O indicador de 18 nós, equivalente a aproximadamente 33 quilômetros por hora, refere-se ao ponto e à camada selecionados no mapa. O valor não deve ser interpretado como a velocidade atual do vento em Manaus.

Os traços brancos permitem observar o alinhamento do fluxo, mas uma imagem estática não mostra com segurança o sentido em que as partículas se deslocam. As capturas também não apresentam, de forma legível, data, horário e toda a configuração da previsão.

Além disso, os mapas não demonstram que o fluxo retratado corresponda às condições atmosféricas existentes durante os incêndios registrados em agosto e setembro de 2026. A confirmação exigiria a combinação entre animações dos ventos, imagens das plumas de fumaça e dados meteorológicos referentes ao mesmo período das queimadas.

Municípios do sul puxaram a queda

A redução do total estadual foi influenciada pelo recuo em municípios que concentravam grande quantidade de detecções em 2023. Lábrea passou de 10.486 para 4.094 focos, queda de 61%. Humaitá caiu de 5.314 para 1.530, redução de 71,2%.

Canutama teve baixa de 3.644 para 1.013 registros, recuo de 72,2%, enquanto Boca do Acre passou de 5.080 para 2.107, diminuição de 58,5%. Também houve redução em Novo Aripuanã, de 23,7%; Manicoré, de 46,6%; e Tapauá, de 68,9%.

Apuí seguiu direção oposta. O município passou de 10.342 para 11.033 focos, aumento de 6,7%, e teve o maior total estadual no bimestre de 2026.

Os números reforçam que a leitura do Amazonas precisa combinar o total do Estado com a distribuição territorial dos focos. A queda das detecções em áreas do sul pode reduzir o balanço geral, enquanto aumentos em localidades próximas de Manaus mantêm outras possibilidades sob acompanhamento.

Comparação se limita a agosto e setembro

O levantamento compara agosto e setembro de 2023 com os mesmos meses de 2026. Os dados de outubro de 2026 não estavam disponíveis no material, o que impede a comparação entre trimestres completos.

Em 2023, outubro acrescentou 31.782 focos. Com isso, o período de agosto a outubro chegou a 121.540 detecções, e o mês representou aproximadamente 26,1% do trimestre.

O estudo contextualiza 2023 como um período marcado por El Niño e seca severa. A comparação, porém, mede a variação das detecções e não determina, sozinha, a participação de fatores climáticos ou de ações de prevenção e combate.

Focos de calor não medem diretamente a fumaça

A metodologia reúne detecções feitas por satélite e organizadas por município a partir do Painel do Fogo do SIPAM. As informações territoriais do IBGE foram usadas para calcular a densidade por 1.000 quilômetros quadrados.

Um foco de calor não corresponde necessariamente a um incêndio individual. A mesma ocorrência pode gerar múltiplas detecções, e o indicador não mede diretamente a área queimada nem o volume de fumaça produzido.

O cruzamento dos dados sustenta uma hipótese: o aumento dos focos em parte do entorno e do setor leste de Manaus pode contribuir para episódios de fumaça quando os ventos favorecem o transporte até a capital, mesmo com a redução do total estadual.

Para apontar quais municípios contribuíram em cada episódio, ainda é necessário combinar a localização e o horário das detecções com imagens das plumas e trajetórias do ar em diferentes altitudes.