Sport e Santa Cruz formam uma das rivalidades mais tradicionais do futebol brasileiro. O confronto, conhecido como Clássico das Multidões, atravessa mais de um século de partidas, decisões, goleadas, grandes públicos e personagens que ajudaram a construir a identidade esportiva de Pernambuco.
Mais do que uma disputa entre dois clubes do Recife, o clássico reúne diferentes trajetórias institucionais e torcidas que transformaram o jogo em um dos principais acontecimentos do calendário esportivo pernambucano. A história do duelo começou oficialmente em 1916 e ganhou um nome próprio apenas décadas depois, quando a imprensa passou a destacar a força popular de rubro-negros e tricolores. (ge.globo.com)
Quando surgiu o Clássico das Multidões
Os primeiros registros do confronto entre Sport e Santa Cruz remontam a 1916, período em que os dois clubes já ocupavam espaço relevante na formação do futebol pernambucano. Naquele ano, o Sport conquistou seu primeiro Campeonato Pernambucano justamente em uma campanha que teve o Santa Cruz como adversário na decisão.
O Sport havia sido fundado em 13 de maio de 1905, enquanto o Santa Cruz surgiu em 3 de fevereiro de 1914, no pátio da Igreja de Santa Cruz, no bairro da Boa Vista, no Recife. O clube tricolor foi criado por jovens e nasceu alvinegro. Em 1915, o vermelho foi incorporado ao uniforme, formando as cores que permanecem associadas ao Santa Cruz. (sportrecife.com.br)
A diferença de idade entre as instituições não impediu que a rivalidade se estabelecesse rapidamente. O Sport começou a acumular títulos estaduais ainda nos primeiros anos de participação organizada, enquanto o Santa Cruz consolidou uma relação forte com setores populares da cidade e passou a ser identificado com a ideia de clube do povo. Essa combinação ajudou a formar a dimensão social do confronto.
De onde vem o nome
A expressão “Clássico das Multidões” foi usada pela primeira vez para designar o duelo em 4 de julho de 1943, em uma reportagem do Diario de Pernambuco. O texto destacava Sport e Santa Cruz como clubes de torcidas numerosas e descrevia o encontro como um dos grandes eventos esportivos do Estado.
Naquele momento, o Sport já era uma potência do campeonato estadual, enquanto o Santa Cruz era reconhecido por sua popularidade. A reportagem também mencionava a capacidade do confronto de produzir grandes bilheterias. O próprio jogo terminou com vitória do Sport por 3 a 0 e ajudou o clube a confirmar o tricampeonato pernambucano daquele período. (ge.globo.com)
O apelido não surgiu apenas por causa da quantidade de torcedores nos estádios. Ele também passou a representar a mobilização que o clássico provocava na cidade. Em dias de Sport e Santa Cruz, a rivalidade saía dos campos e aparecia nas ruas, nas conversas entre torcedores e na cobertura dos jornais.
As primeiras disputas e a formação da rivalidade
Nos primeiros anos, o confronto esteve ligado à afirmação do futebol como principal modalidade esportiva de Pernambuco. O Sport, criado em um ambiente associado à prática de diferentes esportes e à influência de estudantes e profissionais ligados às elites urbanas, rapidamente ganhou destaque competitivo.
O Santa Cruz, por sua vez, construiu sua trajetória com uma identidade popular muito forte. A história oficial do clube registra que sua fundação ocorreu em um contexto de exclusão racial e social em outras instituições esportivas da cidade. O clube nasceu com a proposta de reunir torcedores de diferentes origens e se tornou um dos principais símbolos da cultura futebolística pernambucana. (santacruzpe.com.br)
Essa diferença de origem não deve ser tratada como uma separação absoluta entre as torcidas, mas ajuda a compreender por que o clássico ganhou uma dimensão que ultrapassou a disputa esportiva. Ao longo do tempo, os dois clubes passaram a representar comunidades afetivas distintas, com símbolos, cânticos e memórias próprias.
A maior goleada do confronto
Um dos capítulos mais lembrados da história do clássico ocorreu em 1934. Naquele ano, o Santa Cruz venceu o Sport por 7 a 0, resultado que permanece apontado pelo próprio clube tricolor como a maior goleada da história do Clássico das Multidões.
Goleadas desse tipo ocupam lugar especial na memória das torcidas porque continuam sendo lembradas mesmo muitas décadas depois. O placar se tornou parte do repertório de provocações entre os clubes e passou a ser associado ao período de crescimento do Santa Cruz no cenário estadual. (santacruzpe.com.br)
O clássico também produziu partidas com placares altos em épocas mais recentes. Em 1997, por exemplo, o Sport venceu por 4 a 1 em um jogo marcado por um duelo entre o atacante Leonardo e o volante Zé do Carmo. A partida ficou conhecida por um episódio de provocação em campo, que se transformou em uma das histórias mais comentadas daquela geração. (ge.globo.com)
Ilha do Retiro: o estádio que recebeu o primeiro jogo
A Ilha do Retiro também está diretamente ligada à história do clássico. O primeiro jogo realizado no estádio do Sport ocorreu em 4 de julho de 1937, em uma partida amistosa contra o Santa Cruz. No confronto entre as equipes principais, o Sport venceu por 6 a 5.
O placar expressivo ajudou a transformar a inauguração do campo em um episódio marcante para os dois clubes. A partida foi disputada em uma programação que envolveu os chamados dois quadros das equipes, e os registros preservados em jornais e depoimentos de jogadores mantiveram viva a lembrança daquele dia. (ge.globo.com)
A Ilha do Retiro voltou a ser palco de outros capítulos decisivos. Em 1998, o estádio recebeu o maior público do Clássico das Multidões em sua história: 50.106 torcedores acompanharam a vitória do Sport por 4 a 1, pelo Campeonato Pernambucano.
O número foi registrado em uma temporada marcada por grandes públicos no futebol pernambucano. Naquele período, o programa Todos com a Nota permitia a troca de notas fiscais por ingressos, medida que contribuiu para ampliar a presença de torcedores nos estádios. (ge.globo.com)
Finais que definiram gerações
As decisões do Campeonato Pernambucano são responsáveis por boa parte da carga emocional do clássico. Em 2003, o Sport conquistou o título estadual após empatar por 2 a 2 com o Santa Cruz. O gol decisivo foi marcado por Cleyson Rato aos 44 minutos do segundo tempo, em uma partida que ficou associada à reação rubro-negra no fim do jogo. (ge.globo.com)
Três anos depois, em 2006, Sport e Santa Cruz protagonizaram uma final ainda mais dramática. O Sport havia vencido o primeiro jogo por 2 a 1, no Arruda, e precisava apenas do empate na Ilha do Retiro. O Santa Cruz marcou no último minuto, levou a decisão para os pênaltis, mas o goleiro Gustavo defendeu cobranças importantes e ajudou o Sport a ficar com a taça.
A decisão teve 33.282 torcedores na Ilha do Retiro e entrou para a lista de partidas mais tensas da rivalidade. A disputa terminou com vitória rubro-negra nos pênaltis, depois de uma sequência em que o goleiro do Sport se destacou. (ge.globo.com)
O Santa Cruz respondeu nas decisões seguintes. Entre 2011 e 2013, o clube conquistou uma sequência de títulos estaduais em finais contra o Sport. Em 2011, venceu por 2 a 0 na Ilha do Retiro na partida de ida da decisão. Em 2012, ganhou por 3 a 2 e foi campeão na casa do rival. No ano seguinte, venceu novamente por 2 a 0 e confirmou o tricampeonato estadual sobre o Sport. (ge.globo.com)
A última final estadual entre os dois clubes ocorreu em 2016. O Santa Cruz venceu o primeiro jogo por 1 a 0, no Arruda, e segurou o empate sem gols na Ilha do Retiro. O resultado garantiu o 24º Campeonato Pernambucano do clube e é apontado como o último título estadual conquistado pelo Santa Cruz. (ge.globo.com)
O primeiro clássico internacional
A rivalidade também ultrapassou as fronteiras do futebol estadual. Em 2016, Sport e Santa Cruz se enfrentaram pela Copa Sul-Americana, no primeiro Clássico das Multidões disputado em uma competição internacional.
O Santa Cruz venceu por 1 a 0, com gol de Bruno Moraes, e avançou na competição. Além do resultado esportivo, o jogo ganhou importância por levar uma das maiores rivalidades do Nordeste a um torneio continental. (ge.globo.com)
O duelo internacional mostrou que o peso do clássico não dependia apenas de uma final estadual. A partida reuniu a tradição dos clubes, a proximidade geográfica e a disputa por espaço em uma competição de alcance sul-americano.
Ídolos, provocações e personagens
Grandes rivalidades são construídas também por personagens. No caso de Sport e Santa Cruz, nomes como Leonardo, Zé do Carmo, Marcelinho Paraíba, Carlinhos Bala, Gilberto e Flávio Caça-Rato ficaram associados a jogos importantes e episódios que permaneceram na memória dos torcedores.
Leonardo, ídolo do Sport, protagonizou momentos de provocação e habilidade contra o Santa Cruz. Em um clássico de 1999, diante de um público estimado em 76 mil torcedores, o atacante aplicou um drible marcante no argentino Mancuso, que havia estreado pelo clube tricolor. A jogada se tornou uma das imagens mais lembradas daquele confronto. (ge.globo.com)
Carlinhos Bala representa outro aspecto da rivalidade. Revelado pelo Santa Cruz, o atacante posteriormente se tornou ídolo do Sport, especialmente pela participação na conquista da Copa do Brasil de 2008. A passagem pelos dois clubes reforça uma característica comum do futebol: jogadores que mudam de camisa podem se tornar símbolos de uma torcida e, ao mesmo tempo, despertar desconfiança na outra.
Por que o clássico continua relevante
O Clássico das Multidões permanece relevante porque combina história, identidade e competição. Mesmo quando os clubes vivem momentos esportivos diferentes, o confronto costuma mobilizar torcedores e recuperar memórias de partidas antigas.
O clássico também representa duas das maiores torcidas de Pernambuco. Essa dimensão popular ajuda a explicar os grandes públicos, a importância das decisões e o interesse que o duelo desperta mesmo fora do Campeonato Pernambucano.
O último encontro entre os clubes na Ilha do Retiro registrado pelo ge ocorreu em 19 de julho de 2020, durante a retomada das atividades esportivas em meio à pandemia de Covid-19. Sem a presença das multidões nas arquibancadas, o Santa Cruz venceu por 2 a 1, com dois gols de Pipico, enquanto Hernane marcou para o Sport. (ge.globo.com)
Essa partida também simboliza uma transformação recente do futebol: um clássico conhecido pela força das arquibancadas precisou ser disputado em um cenário sem público. Ainda assim, o peso histórico permaneceu presente no campo e nas lembranças das torcidas.
Um patrimônio do futebol pernambucano
A história de Sport e Santa Cruz não se resume ao retrospecto de vitórias e derrotas. O Clássico das Multidões é formado por estádios lotados, finais decididas nos minutos finais, goleadas que atravessaram décadas e jogadores que se tornaram parte da cultura esportiva do Recife.
O nome criado pela imprensa em 1943 continua adequado porque o duelo envolve multidões dentro e fora dos estádios. Cada geração acrescenta um novo capítulo à rivalidade, seja em uma decisão estadual, em uma competição nacional ou em um encontro que vale apenas pela honra de vencer o maior rival.
Por isso, conhecer a trajetória do clássico é também compreender parte da história do futebol de Pernambuco. Sport e Santa Cruz construíram, juntos, uma das disputas mais reconhecidas do país — uma rivalidade que sobrevive às mudanças de jogadores, dirigentes, campeonatos e fases esportivas.


